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:: Contos |
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CHUVA ÁCIDA
Publicado na revista GENTEBOA
(edição de setembro de 2007)
e na coletânea “Contos Fantásticos – Vol. 13” (CBJE, Rio de Janeiro,
2008). “Essa
história é baseada em fatos reais e, acreditem ou não, aconteceu em
Arroio Grande.”
Por ali todos trabalhavam juntos, era a construção de um enorme
prédio comunitário, uma multidão de operários corria sem parar na
intenção de terminar o serviço o mais rápido possível. Ninguém ficava
parado, a obra era de vital importância para todos, alguns percorriam
vastas distâncias, iam muito longe, só para trazer material e
mantimentos, um verdadeiro trabalho em equipe, onde todos se ajudavam
entre si. Não era preciso bater cartão, nem tampouco alguém se
preocupava com salário. Interesses individuais não existiam, todas as
atenções eram voltadas para o bem comum. Cada um fazia a sua parte e
dava o máximo de si, o sentimento coletivo era legítimo entre os
operários, talvez aquilo fosse o tão idealizado socialismo (ou talvez
nenhum deles jamais tivesse ouvido falar em Marx). O fato é que não
havia disputas políticas, nem armas entre eles, todos trabalhavam em
harmonia, tudo era feito com amor. A obra comunitária aumentava a cada
dia, crescendo verticalmente. Havia uma entrada principal, por onde os
operários passavam e vários túneis e compartimentos internos para
estocar alimentos, todos seriam beneficiados ao final do trabalho. Foram
dias, noites, muito tempo de serviço. A construção já estava na fase
conclusiva, eles davam os últimos retoques, quando o inesperado
aconteceu.
Num dia de sol forte, como que por milagre, desabou uma chuva
ardente e violenta sobre o prédio. Foi uma correria para todo lado, as
águas invadiram os túneis e corredores rapidamente, a força da chuva ia
derrubando paredes, varrendo alicerces, demolindo tudo que os operários
haviam construído. Eles não entendiam nada, apenas corriam e procuravam
abrigo, mas o massacre foi geral, um imenso dilúvio arrasador. Alguns
morriam afogados, outros ficavam agonizando, fraturados e queimados pela
chuva. O desespero foi total na comunidade, em poucos instantes tudo
estava em ruínas, as partes da obra que não haviam sido derrubadas,
estavam alagadas e cheias de cadáveres boiando sobre a espuma das águas.
Uma grande tragédia, famílias inteiras destruídas, muitos operários
mortos, todo o trabalho jogado fora e sobreviventes vagando sem destino
no meio dos destroços. Aquela chuvarada fatal, todo aquele sofrimento só
tinha uma explicação, alguém havia mijado no formigueiro.
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TOP GUN
Publicado na revista GENTEBOA
(edição de outubro de 2007)
e na coletânea “Contos Fantásticos – Vol. 14” (CBJE, Rio de Janeiro,
2008.
Nascido em
Arroio Grande, o tenente Paulo era um dos melhores pilotos da Força
Aérea Brasileira. A bordo do caça A-1 (o mais moderno e veloz de toda a
frota da FAB) sobrevoava a fronteira da Argentina, numa missão altamente
secreta. A noite já caia, quando o radar detectou a presença de caças
inimigos, o tenente, após uma difícil manobra, colocou o avião em
posição de combate. Eram 5 aeronaves argentinas, todas com artilharia
pesada, tão logo surgiram no céu, já ecoava uma mensagem no rádio.
- Avião brasileiro não identificado, você está em zona proibida!
Retorne imediatamente ou será abatido! Repito, retorne ou será abatido!
O tenente Paulo sabia o que fazer, respirou fundo e não esperou a
primeira rajada inimiga para começar a atirar. Os aviões giravam num
violento combate aéreo, em instantes já haviam 3 aeronaves argentinas
destroçadas, e o tenente exibia sua habilidade de vôo. Ao término da
batalha, ele avançou pelo território inimigo e avistou uma tropa com 2
tanques, 6 jipes e cerca de 80 homens, que desta vez atiraram primeiro.
Mas o resultado não foi diferente, com apenas 1 míssil o tenente
explodiu os tanques e logo varreu as trincheiras com poucas rajadas, mas
grande precisão na pontaria. Deixando para trás o campo cheio de
argentinos mortos, o caça A-1 avançou e de repente Paulo já estava
sobrevoando uma base militar, que parecia enfim, ser o Q.G. argentino.
Numa rasante ele explodiu as torres de comando. Então, o cenário se
transformou num enxame de caças inimigos. Eram centenas. Cobriam o
horizonte por toda parte. O tenente percebeu que sua missão era
kamikaze, mas não quis em bater em retirada. Alinhou o caça A-1 e abriu
fogo. O céu se transformara numa chuva de bombas, o tenente desviava dos
mísseis como podia e caprichava nos disparos para poupar munição. Os
aviões argentinos pareciam se multiplicar. Não havia esperança, a
munição foi acabando e o combustível também. O tenente Paulo sentia que
o final estava próximo, tinha o olhar fixo na batalha, aquele era sem
dúvida o combate aéreo mais terrível de sua vida. Sendo fortemente
metralhado, o caça A-1 apresentava turbulência, dificultando o controle
para o tenente. Ele até que estava se saindo bem, mas foi interrompido
por uma ordem vinda diretamente de seu superior.
- Paulinho!
O tenente Paulo ainda teve tempo de abater alguns caças inimigos,
até a segunda ordem que foi definitiva.
- Paulinho, o jantar tá na mesa! Sai já da frente desse Play 2 que
a comida vai esfriá!
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NUMA TERÇA-FEIRA
Publicado na revista GENTEBOA (5ª
edição/2007).
Quando
cheguei ao local combinado Débora já estava deitada. A pele branca, as
pernas bem torneadas, e os seios resumindo o real significado da palavra
sensualidade. Uma mulher maravilhosa. Sempre nos encontrávamos nas
terças-feiras, durante a tarde, e vivíamos momentos de raro e intenso
prazer. Era um amor proibido que já nos envolvia há muitos anos. Débora
era capaz de enlouquecer qualquer homem, tinha um jeito frágil, mas era
um furacão sobre os lençóis. Uma fêmea que exalava libido em cada gesto.
Aquele cabelo loiro, aqueles olhos insinuantes, aquela boca carnuda,
aquela tatuagem no ventre... Ah, que mulher! Impossível não se apaixonar
por uma deusa daquelas.
Foi justamente numa terça-feira dessas que tudo aconteceu. Ela
estava vestida de preto (ficava irresistível de preto), linda como
sempre e deitada com as pernas levemente entreabertas. O ambiente
iluminado à luz de velas espalhava romantismo pelo cenário, quando me
aproximei lentamente. Toda a vez que nossos corpos se aproximavam
acontecia um magnetismo indescritível. Era uma atração devastadora. Uma
paixão de pele que nos fazia delirar nas tardes de terça-feira. Tínhamos
o hábito de colocar flores ao redor da cama quando nos encontrávamos, e
desta vez não foi diferente. O perfume das rosas parecia encontrar as
profundezas de minha alma, e era impossível desviar o olhar do corpo
escultural de Débora. Por um instante toquei a sua mão e pude sentir
mais uma vez aquela pele sedosa e macia. Os dedos delicados e a aliança
de casamento (que ela sempre retirava durante nossos encontros). Meu
coração acelerava e minha boca tremia, como se estivesse suplicando um
beijo. Débora sempre fora a materialização do prazer carnal em minha
vida, a mulher mais impressionante que já conheci. Meus olhos podiam
penetrar aquelas vestes escuras e visualizar nitidamente cada curva,
cada mamilo, cada poro daquele corpo perfeito. Depois de tanto tempo eu
conhecia a anatomia de Débora como a palma da minha mão. Era como se ela
fosse um pedaço de mim. Uma outra metade do meu ser. A minha alma gêmea,
condenada pelo destino a estar comigo apenas nas tardes de terça-feira.
Enfim, Débora era o grande amor da minha vida e eu tinha certeza que
este seria nosso último encontro, então joguei uma rosa em direção ao
caixão que adentrava o túmulo. Depois parti, levando as lembranças das
outras tantas terças-feiras e com a inútil esperança de esquecer esta.
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DE OUTROS CARNAVAIS
Arroio Grande, inverno de 2001.
“- As
águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar...”
Lá estava eu, escorado na parede, tomando uma dose para
desatrapalhar. O “baile vermelho e preto” entupido de gente. Meus olhos
corriam pelo salão atrás da Vanda e do seu par de coxas. Havia nela um
short, mas era como se não houvesse. Entre piratas, gays, colombinas e
outras espécies, ela parecia ser a única coisa no meio do carnaval.
Pensei numa aproximação. Desisti. Pensei de novo. Desisti. Pensei outra
vez. Desisti.
“- Eu passo a mão na saca, saca, saca-rolha e bebo até...”
Pensei de novo, mas era preciso comprar coragem.
- Garçom! Outra dose para desatrapalhar!
O short de jeans estava sendo sugado entre as coxas suadas da
Vanda. Que par de coxas! Alguns confetes boiavam no meu copo de whisky
quando ela sumiu. Rodei o salão à procura daquelas coxas. Entrei e sai
de vários “trenzinhos”, “ralei na boquinha da garrafa”, “segurei o tchan”,
fiz a “dança da Lacraia”, e “dança do Créu” entre outras tantas
coreografias constrangedoras. Quando consegui escapar da esfregação
coletiva, levando comigo um pouco do suor de cada um, fui “só no
sapatinho” procurar a Vanda fora do baile.
- Garçom, vou levar uma dose para desatrapalhar!
No estacionamento então encontrei ela. A Vanda estava de braços
cruzados e com o par de coxas escorado numa Brasília amarela (e era
mesmo uma Brasília amarela). Ensaiei a aproximação. Desisti. Voltei
atrás. Desisti. Agora eu vou...
- E aí Vanda, o que cê tá fazendo aí?
Que chegada horrível, tomei um gole de whisky para impor meu estilo
e, junto com a bebida, um confete que ainda estava boiando no copo.
Colou na garganta. Procurei me afogar com descrição.
- Oi, eu estava contando as estrelas. – Disse ela ofegante e com o
par de coxas todo suado.
- Eu vi você sair, tss tss, e achei que nós, tss tss... – Maldito
pedaço de papel. Impossível não tossir.
- Quer um pouco? – Ela me interrompeu oferecendo lança-perfume,
achei melhor agradecer, pois sempre me dava dor de cabeça. Finalmente
engoli o confete.
- Não, obrigado. – Será que ela acharia caretice?
- Pô cara, que caretice!
- Já preenchi a minha cota esta noite. – Tentei uma saída
estratégica que me fizesse parecer experiente e não babaca. Ela sorriu.
Acho que não colou. O Par de coxas não parava de me olhar, enquanto eu
tentava puxar assunto, até que a Vanda desabafou. Eu era bom nisso.
- Pô cara, eu não sou muito de falar.
- As rosas não falam! – disse eu, apelando para o romantismo.
- O quê?
- Cartola.
- Não entendi.
- Você nunca ouviu falar de Cartola?
- Ah sim, é aquele cara que manda nos times de futebol, né?
A Vanda não era muito inteligente. Talvez por isso as rosas não
falassem.
- Deixa pra lá. Quando é que você volta para Curitiba? – Até hoje
não entendi porque fiz uma pergunta tão imbecil.
- Pô cara, isso vai depender dos meus pais.
- Bom... Vanda... e se a gente fosse para outro lugar... tomar uma
dose... só para destrap...
- Pô cara, eu gostaria muito! – Ela topou. Também com a minha
argumentação. Inacreditável, ela topou. Eu realmente era bom nisso.
- Bom, Vanda, então...
- Gostaria, mas não posso.
- Como assim?
- Pô cara, eu estou com as minhas primas e não posso voltar para
casa sem elas.
Senti que era o momento de tentar algo mais direto. Era tudo ou
nada. Raciocinei rápido e usei uma frase infalível. Ao menos parecia
ser. A Vanda estava perdida.
- Puxa Vanda, como está frio aqui fora. – Meu tom de voz foi
envolvente. Era inevitável que nos abraçássemos.
- Pô cara, é verdade, vou voltar para dentro do baile que está bem
melhor.
- Você vai...
- Minhas primas já devem estar procurando por mim. Vou nessa.
- Mas...
- Pô cara, vai ficar aí fazendo o quê?
- Vou ficar recontando as estrelas que você estava contando. – Ela
sorriu de novo. Não sei se minha frase foi charmosa ou ridícula, mas
Vanda sorriu. O par de coxas também sorriu. Mesmo com a momentânea
derrota, não perdi a pose e fiquei irresistivelmente sério, sentado na
Brasília amarela.
Acho que ela não percebeu, mas assim que se afastou eu me pus a
vomitar. E como vomitei. Pela boca e pelo nariz. Acho que até pelos
olhos. Também depois daquele oceano de whisky. Vomitei mesmo. Não lembro
de rever o confete. Mas como vomitei.
...
Na quarta de cinzas eu era a própria cinza no meu quarto. Minha mãe
jurou que fui trazido para casa por um rapaz alto vestido de baiana, que
ela nunca tinha visto. Minha mãe era brincalhona. Ainda sou o mesmo. Eu
acho.
Assim que o teto do meu quarto parou com aquela coreografia
giratória, resolvi visitar o que havia sobrado da quarta-feira. O Olodum
inteirinho tocava dentro da minha cabeça quando fiz um chimarrão e a
empregada invadiu a cozinha parecendo o Godzila.
- Uma moça bonita deixou este bilhete para o senhor!
Seria da Vanda. Ai que par de coxas. Era da Vanda.
Ela dizia que os pais dela inventaram de viajar logo cedo, para não
pegar tráfego na rodovia. Prometia me ligar caso descobrisse o número do
telefone. Voltaria de Curitiba no próximo carnaval. Eu era um cara
estranho, mas interessante. Ela queria saber mais sobre o cara que
mandava nos times de futebol. Um pouco de batom no papel. E só.
...
Lá estava eu, com o bilhete na mão e a imagem daquele par de coxas.
A água do chimarrão não ficou bem quente. Acho que depois da ressaca vou
escrever um conto ou compor uma canção para a coxa e o seu par de Vandas.
Eu, um cantinho, um violão, esse amor... e uma dose para desatrapalhar.
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Coelhinhos e veadinhos!
Publicado em 24 de março de 2005.
Mal passou
o “Dia Internacional da Mulher” (08 de março) e já chegamos à Páscoa. A
Páscoa esse ano veio um pouco mais cedo, junto com os primeiros dias do
Outono e com os 132 anos do nosso município. Para nós,
arroio-grandenses, já faz alguns anos que a Páscoa coincide com o famoso
“Glamour Gay” (concurso de beleza entre os gays da zona sul). É a festa
da ressurreição de um lado e a festa da “liberação” do outro, tudo no
mesmo dia.
Uma verdadeira loucura!
Assim como as mulheres estão tomando conta de tudo Por Aqui (Juíza,
Delegada, Promotora, Vice-prefeita, Gerente do Correio, Comandante da
Brigada, Juíza do Trabalho, etc.), os gays também começam a ter grande
ascensão social (dentro das Secretarias de Governo, na Câmara de
Vereadores, no comércio e na comunidade como um todo).
Como diz o Pai Tanajara: “...geralmente as coisas são bem mais
organizadas quando tem uma bicha no meio!”
Não dá para negar que o aumento de mulheres e gays no controle da
sociedade indica menos força e lógica e mais sensibilidade e intuição. O
que é bom! Muito bom para o progresso cultural e importantíssimo para
aproximar nossa terra do “mundo globalizado”.
Arroio Grande ainda é uma cidade com padrões defasados e mesmo com
o sucesso e a abrangência do nosso Glamour Gay, ainda paira no ar uma
certa “visão limitada de mundo”. O que preocupa bastante todos aqueles
que querem ver a cidade avançar e entrar logo no ritmo da Era Digital.
Por exemplo: para assumir que é gay Por Aqui o sujeito antes de
mais nada tem que ser muito MACHO! Não é para qualquer um. Talvez por
isso se veja tantos cidadãos de “jeitinho duvidoso” espalhados pela
sociedade.
Mas, agora é Páscoa, tempo de recomeçar. Comprar ovos de chocolate.
Retocar o batom. Encher os cálices de vinho e pensar no futuro.
Amanhã pode ser que os preconceitos sejam derrotados de uma vez por
todas e a cidade se torne realmente GRANDE. Enquanto escolhemos o mais
belo gay do ano, vai passando a procissão. Nossa vida em Arroio Grande
ainda há de ser bem melhor. Colorida como o arco-íris dos homossexuais e
renovada como a fé no Cristo ressuscitado. Amém!
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Na cabeceira da mesa!
(Aos papais Por Aqui e aos
demais...)
Publicado em 10 de agosto de 2006.
Está
chegando mais um “Dia dos Pais” (segundo domingo de agosto) e novamente
será hora de relembrar o inigualável valor desses ídolos nossos de cada
dia. O pai é aquele que sente enjôos terríveis durante a gravidez, tem
que carregar o bebê na barriga durante nove longos meses e depois das
dores do parto (horríveis, nem é bom lembrar!) ainda tem que amamentar.
O pai tem que trocar fraldas, dar “papinha” nas horas certas e estar
permanentemente por perto, quase sempre cuidando da cria e da casa ao
mesmo tempo. Os pais são legítimos sinônimos de AMOR. Não é à toa que em
“coração de pai sempre cabe mais um!” Para ser um pai de família como
manda o figurino é fundamental ter conhecimentos de culinária, corte e
costura, Kama Sutra, economia doméstica, psicologia grupal e primeiros
socorros. Entre outras coisas. Se não tiver o mínimo embasamento nestas
áreas o pai vai acabar fatalmente solteiro.
Antigamente era muito feio ser “pai solteiro”, praticamente todos
eram mal falados, mas hoje em dia isto mudou bastante e têm uns quantos
por aí. Claro que esses vivem uma vida bem mais difícil, além de
educarem os “rebentos” ainda encontram dificuldades óbvias para
conseguir uma nova parceira. Coisas do preconceito. Um dia isto ainda
vai mudar.
Dizem que “ser pai é padecer no paraíso”, e não dá para negar que
os pobres pais sofrem mesmo. Quando alguém vai xingar uma pessoa logo
chama ela de “filho do pai!” É uma ofensa muito popular. E se o filho
for juiz de futebol então... coitado do papai! Também é bom lembrar que
os pais precisam estar sempre vigilantes quanto à alimentação, educação
e saúde dos filhos. Isto sem falar nas questões sociais. É desumano o
preconceito que é aplicado aos pais. Se um pai de família sai sozinho
pela noite já fica todo mundo comentando. Surgem aquelas frases maldosas
do tipo: “- Será que ele está divorciado?”, “- Garanto que está caçando
mulher!” ou “- Olha só aquele cara, onde será que deixou os filhos?”
Como se os pobres pais não pudessem nunca sair para beber com os amigos
e curtir um bom bate papo. E nas escolas então, sempre que tem algum
problema com algum aluno é o pai que é chamado para resolver. Até parece
que é só o pai o responsável pela criança. Um absurdo descabido. Sem
contar que a família não tem a mínima paciência com estes verdadeiros
super-heróis. Nem “naqueles dias do mês” que todo homem fica mais
irritado e sensível por natureza.
Bom, na verdade essa crônica não se refere aos pais e sim às mães.
Mas que diferença isto faz? Aqueles filhos que conhecem o carinho e a
importância da presença de um pai (seja biológico ou não) sabem que ele
é tão essencial quanto a mãe. Às vezes até mais. O verdadeiro amor
familiar é um universo que não permite distinções, desrespeito e muito
menos mágoas. E, afinal, as mães não seriam mães se não houvesse os
pais, portanto... Viva os nossos queridos papais!
Que o Grande Pai do Céu abençoe todos os pais da Terra e sempre
molde seu comportamento junto aos pequeninos (e aos grandinhos também)
com sentimentos puramente maternos.
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Amanhã vai ser outro dia!
Publicado em 06 de julho de 2006.
O final de
semana foi realmente triste Por Aqui. Primeiro o Brasil
apresentou aquele “papelão” contra a França (que já era de se esperar) e
depois a notícia do falecimento de Flávia Lucena. Assim como Fernanda
Conceição, Flavinha é mais uma jovem que nos deixa de forma trágica e
prematura. As duas, coincidentemente (e curiosamente), foram Rainhas do
carnaval no ano de 1985. (Flávia no Comércio e Fernanda no Caixeiral), e
sempre foram alegres, carismáticas e apaixonadas pela vida (além de
muito bonitas, é claro). 21 anos após brilharem no carnaval e comandarem
a diversão e a felicidade dos foliões arroio-grandenses, as
inesquecíveis soberanas agora foram motivos de muitas lágrimas e
tristeza pelas ruas da Cidade Simpatia.
A comoção e a angústia que são geradas neste tipo de acontecimento
sempre inspiram à reflexão e à reavaliação do verdadeiro sentido da
vida. É nos instantes de dor que mais evoluímos enquanto seres humanos e
buscamos explicações aceitáveis para o propósito deste fenômeno chamado
EXISTÊNCIA.
Durante nossa rápida passagem pela Terra estamos sempre
intercalando alegrias e tristezas, bons momentos e maus momentos, etc. A
vida em síntese é esta sucessão de ciclos, que se equilibra e se
movimenta tal qual uma gangorra. A cada dia que termina, outro se
inicia. A cada fruto que morre, germina uma nova semente. E assim por
diante. Nós (os ocidentais) temos uma enorme dificuldade de adaptação a
esta lógica universal que rege os passos da humanidade... OS CICLOS. A
morte faz parte do ciclo da vida. Ambas são antagônicas, porém se
complementam. Quanto mais inventamos relógios, calendários e teses
mirabolantes sobre o DNA, menos entendemos os ciclos da vida. Que,
aliás, de tão simples que são parecem mesmo impossíveis de compreender.
Sempre que alguém nos deixa, além de encerrar o seu ciclo pessoal de
vida também encerra um ciclo na vida das pessoas de seu convívio. Estas,
então, recomeçam novas etapas em suas existências, carregando o tão
pesado fardo da saudade através do cotidiano. E quando a saudade se
apresenta assim, de maneira tão avassaladora, é como se nada mais
fizesse sentido. Os dias parecem cinzentos e sem razão. Os minutos se
arrastam como se fossem infinitos e a gente desaprende como sorrir por
uns tempos. A saudade, então, transforma o interior dos homens e os
aproxima da vida, afinal vida é sinônimo de movimento, transformação,
mudança, etc. São os tais ciclos...
Por isto enquanto houver sol sempre haverá um novo dia por nascer.
E somente o passar dos dias é capaz de cicatrizar as profundas feridas
da perda. Em determinados momentos da vida a gente até não acredita, mas
elas cicatrizam quando menos se espera!
A vida é uma dor que vale à pena!
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A Souza Cruz e a sua cruz!
(O mal não entra pela boca, o mal é
o que sai...)
Publicado em 31 de agosto de 2006.
29 de
agosto é o dia de combate ao tabagismo. A humanidade vem avançando
bastante nesse aspecto e hoje em dia já podemos ver vários lugares com
ambientes especiais para fumantes. Ainda bem! Existe muita controvérsia
quando o assunto é fumo, e falar sobre o tema é polêmica na certa. O
tabagismo divide os homens em três grupos: Os fumantes, os não-fumantes
e os ex-fumantes (em Arroio Grande temos ainda os plantadores de fumo,
mas sobre estes é melhor não comentar no momento. Coitados...). Os
não-fumantes se queixam da presença dos fumantes e acusam o cigarro de
ser o gerador da maioria das desgraças do planeta. Não estão muito
errados. Os fumantes, por sua vez, não estão “nem aí na paçoca” e fumam
mesmo, afinal, todo mundo diz que eles vão morrer logo. Se é inevitável,
então que seja com prazer. Também não estão muito errados. Alguns
fumantes (como Paulo Santana, por exemplo) se queixam de sofrer
discriminação no dia-a-dia e não se conformam com o fato dos outros dois
grupos (não-fumantes e ex-fumantes) não quererem dividir um cigarrinho
com eles. Os ex-fumantes normalmente são os mais radicais. Odeiam
cigarro e tudo mais que gere fumaça (chaminé, carro a álcool, etc.).
Muitas vezes consideram os não-fumantes uns ignorantes por nunca terem
dado uma tragadinha. No fundo o sonho deles é banir os fumantes da face
da Terra e depois fumar um para comemorar. Mas só um, senão já voltam a
ser fumantes e ficam com aquele cheiro horrível. Que nojo!
Agora deixemos para lá este bando de gente esquisita, pois o fato é
que o tabagismo deve ser combatido. Quer dizer, deve mesmo? Bom, se
existe uma data enfatizando tal luta então deve ser uma causa nobre.
Algo “politicamente correto.” Afinal, não se tem conhecimento do dia do
fumante ou do dia do drogado ou do dia do burracho ou do dia do usuário
de qualquer outro vício do tipo... Destes que dão prazer e pelo que
afirma a ciência... vão acabar matando a gente!
E a vida é assim, atrás do prazer sempre tem algo mortal. O tal do
Adão, que foi degustar a maçã no Paraíso, que o diga. Tudo que
proporciona algum tipo de prazer nesta vida carrega consigo uma
possibilidade de nos causar algum mal profundo. Infelizmente é assim.
Doce faz mal, carne gorda faz mal, sexo é arriscado, beber faz mal e, é
claro, fumar faz mal. Muito mal. Até para quem não fuma. Algumas teorias
afirmam que o homem possui em síntese três componentes: Alma, espírito e
corpo. Considerando que um dia todos nós vamos deixar de viver (ou seja,
deixar o corpo) não parece muito inteligente cuidar demais da saúde.
Seria como realizar grandes obras em sua casa e de uma hora para outra
mudar-se. Bom, isto é um problema de cada um. A questão é que o que faz
mais mal mesmo é não viver. A vida precisa ser vivida com intensidade e
com ousadia. É preciso estar sempre lutando para realizar um sonho e,
imediatamente, após consegui-lo, partir para outro. Os sonhos oxigenam a
alma, energizam o espírito e consequentemente fortalecem o corpo.
Vamos sonhar e acreditar nos sonhos (por mais impossíveis eles que
sejam). Vamos viver e acreditar na vida (por mais injusta que ela
pareça). Porque um dia tudo acaba, a cobra fuma e todos nós viramos
cinzas...
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Uma noite no Bar do Xiringa
Para o grande amigo, cúmplice e
parceiro musical Miguel de Freitas Vidal (Verão de 2008).
O lugar se
chama Xira’s Bar. Já faz mais de quinze anos que resiste nas noites da
pequena Arroio Grande. Sempre com uma boa música, gente bonita e a
risada inigualável do seu proprietário. Aliás, o proprietário (conhecido
como Xiringa) é na verdade um cliente também. Troca idéias com os
fregueses, escuta confissões, aconselha e, é claro, se degusta com a
variedade de bebidas. As noites no Xira’s Bar não fogem muito à regra
dos demais bares, com a peculiaridade de serem em Arroio Grande, lugar
onde as noites “não têm noite”. Não fosse o tal do Xiringa que atravessa
invernos e verões sempre “fabricando vida noturna e inteligente” nessa
cidadezinha do sul do sul do Rio Grande do Sul. Na rua, apesar do espaço
estreito, os carros vão fazendo o estacionamento oblíquo e despejando os
boêmios, que se subdividem em vários grupos. Uns mais espalhafatosos,
outros mais discretos; uns acompanhados, outros à procura de companhia.
Enfim, de tudo um pouco. Em poucas horas o ambiente está preenchido por
integrantes de diversas gerações, e tomado por uma aura “poli-sentimental”,
onde a multiplicidade de interesses e assuntos revela a magia e o real
significado da palavra “bar”. Pelo balcão escorre uma correnteza de
opiniões sobre futebol, política, música, passado, presente, futuro,
amor, arroz, bundas, bebidas, etc. Tudo temperado com a cerveja mais
gelada do universo. Ao menos do “universo boêmio-paroquiano” dos
freqüentadores do Xira’s Bar.
Sempre tem algum indivíduo que fica no canto do balcão, escorando
as costas na parede, isolado e só observando a noite se desenrolar. Como
se fosse um juiz, deixando escapar no olhar a sua sentença moral para os
comportamentos incomuns, que vão se manifestando conforme o álcool é
consumido e as horas avançam. Mas nada pode abalar a química do bar que
se desenvolve num verdadeiro espetáculo noite afora. Num determinado
momento a música parece uns decibéis acima do normal, porém não o
suficiente para interromper as tantas conversas que se entrecruzam no ar
repleto de fumaça e mistura de perfumes. Vai se aproximando a hora do
“vale tudo”, todos dançam, “bebemoram” e até o Xiringa já está tomando
todas no meio da “galera”. A alegria encontra sua plenitude e o bar
inteiro se transforma numa tribo em dia de festa. Batucada nas mesas,
coreografia na beira do balcão, beijos ardentes contra a parede e uma
turminha que sai lentamente em direção à esquina (depois retorna
sorridente e com os olhos vermelhos).
O sol começa a pular a janela, pouco antes do Marcão e do Romerito
tomarem a última gelada do freezer, finalmente, então, a porta se fecha.
E encerra-se mais um capítulo das épicas madrugadas do Xira’s Bar. Lá
fora ainda ficam o Valdir e o Claudinho, com os copos vazios, mas num
assunto que ainda não acabou, e possivelmente nunca acabe. O Xiringa,
então, coloca no DVD um vídeo clipe do Pink Floyd, enquanto toma a
“saideira” (que ele escondeu na geladeira) e coloca as cadeiras e as
mesas no lugar. A noite chegou ao fim.
E no Bar do Xiringa é assim mesmo... Um lugar onde tudo pode, mas
ninguém jamais ouviu um pagode. Um lugar onde se aquece as madrugadas
com cerveja bem gelada. Um lugar onde se espanta a solidão e o freguês,
às vezes, tem razão. Um lugar onde as noites são tão interessantes, que
nem parece Arroio Grande.
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Sem palavras...
Publicado em 02 de junho de 2005.
Das tantas
tentativas de escrever sobre o que senti com o falecimento do amigo
Pedro Bittencourt nenhuma deu certo. Muitas folhas de papel rasgadas,
muitos arquivos deletados, muito whisky e sensações de vazio e inércia
perante a diversidade de sensações que a vida nos apresenta nessas
horas.
É lógico que seria impossível traduzir em palavras o que foi na
verdade o “Velho Pedro”, além de ser uma enorme audácia. Afinal de
contas, se alguém conhecia bem as palavras esse alguém era ele. Não foi
apenas um advogado brilhante, um pai idolatrado, um boêmio exemplar ou
um poeta virtuose. Foi bem mais que tudo isso. Um grande maluco (o maior
que já conheci) com alma de menino, capaz de transpor a complexidade da
existência com “versinhos ingênuos” e de conceituar com refinada
linguagem a simplicidade da vida.
Sua transição, além de ser motivo de dor para a família e amigos,
aumenta a inquietude e a insegurança no coração dos artistas. Hoje
convivo com uma aborrecida dualidade sentimental: A egoísta felicidade
por saber que em duas pequenas obras artísticas minhas esse gênio esteve
presente (prefaciando o Livro “Delírio Delicado” e com um poema adaptado
no CD “Primeira Pedra”) e a angustiante certeza de que a comunidade
arroio-grandense, na atualidade, não faz nem uma idéia aproximada do que
perdeu. Quem o conheceu sabe muito bem que apesar de ser o senhor das
palavras, as palavras jamais conseguirão traduzi-lo! Fica apenas a
certeza de que Vinícius, Neruda e outros mestres agora terão
companhia...
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